Zé Pelintra é vagabundo ou malandro? Tem diferença?

Zé Pelintra
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(…) na boca de quem não presta, Zé Pelintra é vagabundo.

trecho de um ponto de Zé Pelintra

Segundo o dicionário, temos:

Significado de Vagabundo

Segundo dicionário, vagabundo se refere a quem não trabalha, vaga sem rumo, é preguiçoso, ou vive de forma desocupada. Vamos guardar o conceito de “não trabalha” ou vive de forma “desocupada” para mais tarde.

Para tal análise dos adjetivos dados ao Zé Pelintra como vagabundo, devemos entender um pouco da História do Brasil, da abolição da escravidão até a industrialização.

Um pouco sobre a abolição

A Abolição foi um processo custoso aos meios de produção, pois rompeu fortes paradigmas, muitos deles associados à superioridade racial, aos sentimentos de perdas e obrigação de mudanças.

As elites latifundiárias se viram obrigadas a buscar outros meios de produção, manutenção dos lucros e ganhos às custas da mão de obra escrava, porém fortemente presa aos costumes, preconceitos e formação cultural precária se comparada à cultura européia.

Curiosidades e fatos sobre a Lei Áurea
Filósofo esclarecendo fatos sobre a escravidão e preconceito, além de combater o negaciosismo histórico.

Os negros foram largados, muitos deles nus, sem nenhuma posse e, por, fora da vida social em todos os sentidos. Sob esse descaso estrutural, estratégia do branqueamento pela sociedade branca e, adotada pelos negros mais inseridos na economia, moldou outro tipo de padrão social. Por isso os alisamentos de cabelo, vestes europeizadas, exclusão de costumes africanos e, a busca da inserção social pela “assimilação” dos hábitos dos brancos.

Portanto houve um contrato tácito entre branco e negros, do tipo: “ou adota a nossa cultura, ou não te aceitamos”.

Oficialização do malandro

Fora do padrão social produtivo, alguns negros passaram a “ganhar a vida” de outras formas, usando a esperteza, nas jogatinas, nas apostas em praças públicas, nos bordéis, nas casas de jogos.

Eis que oficializa a figura do malandro, e que, até o momento não tinha qualquer associação com o termo vagabundo. O malandro as vezes tinha problemas com a polícia, outras era até muito conhecido.

A industrialização e surgimento do proletariado como classe social dominante

O proletariado é que estreita a relação entre vagabundo com quem não tem “ocupação laboral” oficial, e nesse aspecto inclui a camada social desescolarizada e, ainda sofrendo os preconceitos da abolição dos escravos. A cor da pele passa ser a marca direta dessa associação preconceituosa, quase que um jugamento.

Portanto, se ser negro tinha grande associação com o conceito de vagabundo, aquele negro que sobrevivia só de diversão, jogatinas, apostas, pequenos serviços descompromissados, até então conhecido como malandro ou ladino, passou à categoria de vagabundo.

(…) agora, que eu quero ver, quem é malandro não pode correr!

trecho de um ponto de Zé Pelintra

O malandro tinha suas conexões, era conhecido e respeitado, tinha dinheiro, frequentava vários ambientes e, de alguma forma era respeitado, passou a ser associado a vagabundo. A própria sociedade criou o sinônimo entre vagabundo e malandro.

Como afirma o ponto de Zé Pelintra, malandro não precisava correr por que ele não devia nada à justiça, não era bandido, apenas ganhava a vida na esperteza dela. Esperteza essa necessária diante das relações verticais e racistas impostas pelo modelo econômico industrial.

Já os considerados vagabundos eram sujeitos “desgarrados”, andarilhos, totalmente desocupados em todos os sentidos. Estes sim corriam porque se defendiam das ações policiais “sanitizantes” das cidades.

Esses fatos explicam o trecho: “Na boca de quem não presta, Zé Pelintra é vagabundo”, porque justamente as pessoas que classificavam o malandro como vagabundo eram dotadas de defeitos graves como: preconceito, racismo, certo grau de sociopatia, egoísmo e, os que negavam a própria origem étnica.

Espero ter explicado as diferenças entre malandro e vagabundo e o s dois trechos dos dois pontos.

Saravá!

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